
Dessa vez ela escolheu o cantinho perto da janela. O chão já estava muito comum como companhia, e Jaqueline enjoava fácil das coisas. E de alguma forma as duas paredes que se encontravam formavam uma espécie de porto seguro...ela se sentia praticamente abraçada quando se enfiava lá.
Aliás, fazia tempo que ela não sentava naquele canto...a última vez ela acabou quebrando a janela de vidro com um soco. Mas não foi proposital. Foi tudo culpa do ambiente externo que exercia uma enorme influência no seu ambiente interno, e fazia ele ter vontade de pular e gritar e se jogar da janela...mas como a janela estava fechada, vocês já sabem.
Dessa vez o problema era semelhante. Mas não tinha a mesma intensidade e não se tratava do mesmo assunto. A outra vez eram seus pais. Agora não era nada. Nada que pudesse claramente ser classificado.
Era um bolo. Um nó gigante cheio de fios que se emaranhavam...como quando você guarda muitos colares numa caixa e depois demora 4 dias só para desatar os nós. Mas ela simplesmente nao tinha acesso físico àqueles nós...e também não possuia um poder mental tão forte para simplesmente fazê-los obedecer suas vontades.
Então ela ficou lá, sentada. Sentindo o bolo ir de um lado pro outro, como se fosse uma bola de feno solta em um enorme campo atingido por uma ventania. E isso fazia cócegas. Cócegas desagradáveis por sinal.
Assim ela percebeu que havia muito tempo que não chorava. Que não chorava de verdade. No escuro, sozinha, sentindo cada gota de sal descer por seu rosto até chegar ao seu queixo e por fim, molhar seu moletom cinza.
Foi assim que seu moletom tornou-se praticamente preto. Ela não sabia que tinha tanto espaço para lágrimas dentro daquele corpo. Sempre pensou que o cérebro devia ter funções mais inteligentes para toda aquela água presente dentro daquela caixa.
E chorou. Por horas e horas. Sem poder explicar o motivo. Sem nem ao menos querer saber o motivo...chorar era simplesmente tão...bom.
E esse conforto tomou conta dela, e com o tempo aquele abraço que ela sentia, aquele envolvimento que as paredes ao seu redor formavam, faziam com que o passar dos segundos diminuíssem juntamente com o espaço vazio ao redor dela, e as lágrimas suavisassem aquele vazio que ela carregava dentro de si.
Em sua cabeça muitas horas passaram...dias talvez. E ninguém foi procurar por ela. E ela não procurou por ninguém. Naquele momento sabia que ela, suas lágrimas e suas paredes se bastavam.
O Teto estava lá também caso ela precisasse de alguma proteção.
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